sábado, 30 de outubro de 2010

A importância da circunstância

 A importância da circunstância
 

“To understand is to transform what is”
J. Krishnamurti

Projecto da Baía de Vitória de Paulo Mendes da Rocha


“A revolução arquitetónica - já que se trata de uma verdadeira revolução – implica diferentes factores”:1


I)              Classificação
“Estou levantando o que me parecem ser as justas questões que precisariam de ser resolvidas. É nessa medida que você as levanta para transformá-las em problemas.” 2             
A sociedade impõe dogmas e condicionantes ao indivíduo. Para analisar, caracterizar e compreender o espírito do nosso tempo (bem como o de qualquer outro) temos antes de mais de pôr em causa tudo o que nos rodeia e principalmente tudo o que nos rodeia quotidianamente.
Ao mesmo tempo que se deixa cair os dogmas que nos condicionam o raciocínio, é necessário resistir à tentação de os substituir por outros mal ponderados…ou por nenhuns.
 Não existe um espírito do nosso tempo mas vários pelo que é certo que todos contribuem para a nossa noção de zeitgeist. Não sendo possível analisá-los a todos, é necessário ter consciência de que tal como uma cidade, o espírito do nosso tempo é um organismo vivo e em constante mutação, que se adapta à medida que as circunstâncias se modificam.

II)             Dimensionamento
“Seria necessário, antes de mais nada, estudar o terreno e traçar o plano de acordo com ele? Este é o método corrente”3. A escala mudou. O método já não pode ser o corrente. O espírito do nosso tempo globalizou-se e a arquitectura segui-lhe os passos. Torna-se por isso possível fazer arquitectura sem lugar. Contudo uma arquitectura desprovida de lugar é também desprovida de tempo em lugar de ser intemporal. Hoje deve-se humanizar a escala. Não se desenha edifícios…desenha-se lugares. A transformação do lugar e da paisagem é o principal objectivo contemporâneo da arquitectura.  

III)            Circulação
“É o grande termo moderno”4 e continua a ser o grande termo contemporâneo.
A circulação é a grande qualidade do tempo em que vivemos. Tudo circula melhor, mais rápido e em maior número: pessoas, informação, imagens… Isto unifica a cultura e por conseguinte a arquitectura.
Não se trata de procurar um estilo internacional. Existe agora a consciência de que as circunstâncias condicionam profundamente o resultado arquitectónico. Trata-se portanto de as saber analisar e utilizá-las de forma a descobrir qual o princípio arquitectónico a aplicar em cada caso.      

IV)            Composição
“ Façamos intervir a qualidade individual do arquitecto”5. O arquitecto é hoje um coordenador de especialidades mas não deve tornar-se num especialista em generalidades6. Tem que ser capaz de compor as diferentes especialidades conferindo-lhes valor artístico.Poesia, lirismo, proporcionados pelas técnicas.”  
   
V)             Proporcionamento
“Para os olhos tudo é geométrico.”7 O principal reflexo de uma sociedade é a sua arquitectura. Mas hoje a arquitectura deve mais do que nunca ter cinco sentidos em vez de cinco princípios. Para isso deve ser sensível às circunstâncias presentes… entendê-las, problematiza-las…para assim poder transformá-las.
“Nós resolvemos os problemas, então está feito.”8




1 Le Corbusier, Precisões, conferência intitulada o plano da casa moderna Cosac e Naify, trad. Carlos Eugênio de Moura,p.129
2 Mendes da Rocha, Paulo, Maquetes de Papel, Cosac e Naify, p.34
3 Le Corbusier, Precisões, conferência intitulada o plano da casa moderna, p.131
4 id.131
5 id. p.135
6 Bandeira, Pedro in arq/a, Julho;Agosto 2009 pág. 96
7 Le Corbusier, Precisões, conferência intitulada o plano da casa moderna, p.136
           8 Mendes da Rocha, Paulo, Maquetes de Papel, Cosac e Naify, 

Sem comentários:

Enviar um comentário